{"id":12270,"date":"2021-01-20T13:01:00","date_gmt":"2021-01-20T13:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/oparanews.com.br\/?p=12270"},"modified":"2021-01-20T13:01:00","modified_gmt":"2021-01-20T13:01:00","slug":"brasil-deve-enfrentar-pior-fase-nas-proximas-semanas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.oparanews.com.br\/index.php\/2021\/01\/20\/brasil-deve-enfrentar-pior-fase-nas-proximas-semanas\/","title":{"rendered":"Brasil deve enfrentar pior fase nas pr\u00f3ximas semanas"},"content":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos dias, a pandemia no Brasil foi marcada por imagens de dor e de esperan\u00e7a. De um lado, a falta de oxig\u00eanio em Manaus mostrou a trag\u00e9dia causada pela falta de coordena\u00e7\u00e3o contra a covid-19. Do outro, a aprova\u00e7\u00e3o das primeiras vacinas deu o primeiro sinal, ainda bem distante, de que essa crise sanit\u00e1ria vai ter um fim.<\/p>\n<p>Em meio a tantas not\u00edcias, especialistas ouvidos pela BBC News Brasil alertam que a situa\u00e7\u00e3o da pandemia no pa\u00eds deve se agravar entre o final de janeiro e o in\u00edcio de fevereiro.<\/p>\n<p>&#8220;Estamos num momento bem preocupante. Talvez as pessoas n\u00e3o estejam percebendo ainda, mas tudo indica que as pr\u00f3ximas semanas ser\u00e3o complicadas&#8221;, antev\u00ea o bioinformata Marcel Ribeiro-Dantas, pesquisador do Institut Curie, na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>De acordo com o levantamento feito pelo Conass (Conselho Nacional de Secret\u00e1rios da Sa\u00fade), o pa\u00eds contabiliza at\u00e9 o momento 8,5 milh\u00f5es de casos e 210 mil mortes por covid-19. Nos \u00faltimos dias, a confirma\u00e7\u00e3o de novas infec\u00e7\u00f5es e \u00f3bitos pela doen\u00e7a tem se mantido num patamar considerado alto.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia, de acordo com epidemiologistas, bioinformatas e cientistas de dados ouvidos pela reportagem, \u00e9 que esses n\u00fameros se mantenham elevados ou subam ainda mais daqui para a frente.<\/p>\n<p>Mas qual a raz\u00e3o para isso? H\u00e1 pelo menos quatro fatores que ajudam a explicar esse momento da pandemia no Brasil.<\/p>\n<p>Efeito Natal e R\u00e9veillon<\/p>\n<p>N\u00e3o foram poucos os relatos de aglomera\u00e7\u00f5es nos \u00faltimos dias de dezembro. A despeito das orienta\u00e7\u00f5es das autoridades em sa\u00fade p\u00fablica, muitos familiares e amigos resolveram se reunir para celebrar o Natal e a passagem para 2021.<\/p>\n<p>Os efeitos das festas come\u00e7am a ser sentidos agora. E isso pode ser explicado pela pr\u00f3pria din\u00e2mica da covid-19 e o tempo que a doen\u00e7a demora a se manifestar e se desenvolver.<\/p>\n<p>&#8220;A transmiss\u00e3o do v\u00edrus pode at\u00e9 ter ocorrido durante essas festas, mas a necessidade de ficar num hospital ou at\u00e9 a morte do paciente leva semanas para acontecer&#8221;, nota o estat\u00edstico Leonardo Bastos, pesquisador em sa\u00fade p\u00fablica da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Em linhas gerais, o indiv\u00edduo que \u00e9 contaminado pelo coronav\u00edrus pode demorar at\u00e9 14 dias para ter algum sintoma (como febre, tosse seca, dores, cansa\u00e7o e falta de paladar ou olfato).<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que, nesse \u00ednterim, ele pode transmitir o agente infeccioso para outras pessoas, criando novas cadeias de transmiss\u00e3o na comunidade.<\/p>\n<p>J\u00e1 nos quadros mais graves da doen\u00e7a, que evoluem para falta de ar e acometimento dos pulm\u00f5es, h\u00e1 uma janela de cerca de sete dias entre o contato com o v\u00edrus e a necessidade de interna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois da hospitaliza\u00e7\u00e3o, os pacientes que morrem por covid-19 podem ficar at\u00e9 cinco semanas num leito antes de falecer.<\/p>\n<p>Considerando esse tempo todo de evolu\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a e o atraso nas notifica\u00e7\u00f5es, \u00e9 de se esperar que as infec\u00e7\u00f5es pelo coronav\u00edrus que aconteceram entre os dias 24 de dezembro e 1\u00ba de janeiro apare\u00e7am com mais frequ\u00eancia nos boletins epidemiol\u00f3gicos daqui pra frente.<\/p>\n<p>Essa bola de neve do final de ano pode ser emendada com outra, provocada pelas aglomera\u00e7\u00f5es relacionadas ao Enem.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso considerar que, no \u00faltimo domingo (17\/12), mais de 2,5 milh\u00f5es de brasileiros se deslocaram at\u00e9 o local da prova e permaneceram por v\u00e1rias horas em locais fechados com desconhecidos ao redor.<\/p>\n<p>Os epidemiologistas e cientistas de dados poder\u00e3o medir o efeito dessa movimenta\u00e7\u00e3o de tanta gente nas cidades brasileiras a partir de fevereiro ou mar\u00e7o.<\/p>\n<p>Onda de muta\u00e7\u00f5es e variantes<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas, cientistas detectaram variantes do coronav\u00edrus que causaram grande preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dessas novas vers\u00f5es ganharam destaque. Elas foram encontradas no Reino Unido, na \u00c1frica do Sul e no Brasil (mais precisamente em Manaus).<\/p>\n<p>O que chamou aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que esse trio traz muta\u00e7\u00f5es nos genes relacionados \u00e0 esp\u00edcula, uma estrutura que fica na superf\u00edcie viral e permite que ele invada as c\u00e9lulas do nosso corpo para dar in\u00edcio \u00e0 infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo indica que essas mudan\u00e7as gen\u00e9ticas deixaram o v\u00edrus ainda mais infeccioso e podem facilitar a sua transmiss\u00e3o. Isso ajudaria a explicar, por exemplo, o aumento de casos que ocorreu em algumas cidades brit\u00e2nicas ou em Manaus.<\/p>\n<p>Por mais que essas variantes n\u00e3o tenham sido relacionadas a quadros mais graves de covid-19, elas podem ter um efeito indireto na mortalidade \u2014 afinal, se mais gente pegar a doen\u00e7a, o n\u00famero de interna\u00e7\u00f5es e mortes subir\u00e1.<\/p>\n<p>&#8220;Os v\u00edrus sofrem modifica\u00e7\u00f5es a todo o momento e, quanto mais ele circular entre as pessoas, maior ser\u00e1 a chance de ele ter muta\u00e7\u00f5es e se tornar mais ou menos agressivo&#8221;, pondera o m\u00e9dico Marcio Sommer Bittencourt, do Centro de Pesquisa Cl\u00ednica e Epidemiologia do Hospital Universit\u00e1rio da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>Demora na atualiza\u00e7\u00e3o dos dados<\/p>\n<p>No m\u00eas de dezembro, \u00e9 comum que muitos funcion\u00e1rios tirem f\u00e9rias. Setores e departamentos de empresas privadas ou \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos entram em recesso por alguns dias. Alguns setores chegam a trabalhar com equipes reduzidas.<\/p>\n<p>Isso, claro, aconteceu com trabalhadores da \u00e1rea de sa\u00fade e de vigil\u00e2ncia epidemiol\u00f3gica dos estados e dos munic\u00edpios brasileiros.<\/p>\n<p>&#8220;Uma coisa que notamos desde o final de 2020 \u00e9 um atraso muito grande na digita\u00e7\u00e3o dos dados de pacientes com covid-19 confirmada. No Rio Grande do Sul, por exemplo, 68% dos casos de infec\u00e7\u00e3o pelo coronav\u00edrus que apareceram nos sistemas do governo em janeiro ocorreram nos meses anteriores&#8221;, observa o cientista de dados Isaac Schrarstzhaupt, coordenador da Rede An\u00e1lise Covid-19.<\/p>\n<p>Os laborat\u00f3rios que fazem testes dos casos suspeitos da doen\u00e7a tamb\u00e9m est\u00e3o demorando muito mais para soltar o resultado, segundo os relat\u00f3rios do Gerenciador de Ambiente Laboratorial, plataforma mantida pelo Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS).<\/p>\n<p>No m\u00eas de novembro, 91% das amostras dos pacientes com suspeita de covid-19 eram processadas e avaliadas num per\u00edodo de at\u00e9 dois dias e 8% demoravam entre tr\u00eas e cinco dias.<\/p>\n<p>J\u00e1 em dezembro, 73% dos exames tiveram seu lado liberado em menos de 48 horas. Cerca de 18% das an\u00e1lises levavam entre tr\u00eas e cinco dias e 9% tiveram que aguardar at\u00e9 dez dias para ter um diagn\u00f3stico confirmado ou descartado.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que atrasos j\u00e1 aconteciam antes, mas eles est\u00e3o mais graves e preocupantes nas \u00faltimas semanas, afirmam os especialistas.<\/p>\n<p>Novas gest\u00f5es e ac\u00famulo de trabalho<\/p>\n<p>Outro fator que parece ter atrapalhado ainda mais a coleta das estat\u00edsticas foi a transi\u00e7\u00e3o de governo em muitas cidades brasileiras. V\u00e1rias prefeituras tiveram uma troca de comando a partir de janeiro.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 casos em que o novo prefeito modificou o secret\u00e1rio de sa\u00fade e reformulou a equipe que acompanha essas quest\u00f5es. H\u00e1 um tempo at\u00e9 que esses novos gestores se acostumem ao ritmo e \u00e0s necessidades da pandemia&#8221;, afirma Schrarstzhaupt, da Rede An\u00e1lise Covid-19.<\/p>\n<p>Por fim, os profissionais de sa\u00fade est\u00e3o sofrendo com o ac\u00famulo de fun\u00e7\u00f5es. Em muitos lugares, s\u00e3o os pr\u00f3prios m\u00e9dicos e enfermeiros que precisam alimentar o sistema de inform\u00e1tica com os novos casos confirmados de covid-19 no hospital.<\/p>\n<p>&#8220;E isso envolve at\u00e9 uma quest\u00e3o \u00e9tica. Entre digitar uma ficha no computador e tratar um paciente que demanda cuidados, a segunda op\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre mais urgente. Necessitamos de mais investimento em vigil\u00e2ncia e profissionais que fa\u00e7am esse trabalho de atualiza\u00e7\u00e3o&#8221;, aponta Bastos, da Fiocruz.<\/p>\n<p>&#8220;Tenho visto cada vez mais m\u00e9dicos postando nas redes sociais fotos da montoeira de fichas de papel que aguardam digita\u00e7\u00e3o no sistema. \u00c9 uma pilha que parece nunca diminuir&#8221;, completa Schrarstzhaupt.<\/p>\n<p>Realidade paralela<\/p>\n<p>O descompasso entre o que mostram as curvas epid\u00eamicas desatualizadas e o verdadeiro cen\u00e1rio da pandemia pode fazer muito estragos.<\/p>\n<p>Para in\u00edcio de conversa, essa subnotifica\u00e7\u00e3o de casos e mortes por covid-19 traz uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a, como se o pior j\u00e1 tivesse passado.<\/p>\n<p>&#8220;E isso ajuda a vender uma ret\u00f3rica que agrada algumas pessoas. Quantas vezes j\u00e1 ouvimos gente anunciar que a pandemia estava chegando ao fim? Que ter\u00edamos uma queda dos casos e mortes a partir da pr\u00f3xima semana?&#8221;, questiona Ribeiro-Dantas, do Institut Curie.<\/p>\n<p>A principal li\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre tomar cuidado com as estat\u00edsticas mais recentes. &#8220;\u00c9 preciso ter mais transpar\u00eancia e evidenciar que os dados dos \u00faltimos 15 dias n\u00e3o s\u00e3o absolutamente confi\u00e1veis e sofrer\u00e3o atualiza\u00e7\u00f5es. Se os n\u00fameros estiverem caindo, devemos ter um pouco de calma antes de anunciar que a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 tranquila&#8221;, ensina o bioinformata.<\/p>\n<p>A parte que nos cabe<\/p>\n<p>Bittencourt, do Hospital Universit\u00e1rio da USP, diz que o aparecimento das variantes do v\u00edrus era algo esperado durante a pandemia. &#8220;O comportamento do v\u00edrus \u00e9 altamente previs\u00edvel. Mas a mesma coisa n\u00e3o pode ser dita sobre o comportamento das pessoas&#8221;, diz.<\/p>\n<p>O especialista se refere ao papel de cada cidad\u00e3o no enfrentamento da pandemia. Afinal, apesar do cansa\u00e7o acumulado dos quase 12 meses pand\u00eamicos, as medidas preventivas continuam essenciais.<\/p>\n<p>Todos precisamos seguir com os cuidados b\u00e1sicos, como a limpeza das m\u00e3os, o uso de m\u00e1scaras e o distanciamento f\u00edsico das pessoas que n\u00e3o fazem parte de nosso conv\u00edvio di\u00e1rio. Outro ponto pouco lembrado na lista das recomenda\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas \u00e9 a prefer\u00eancia por locais abertos e com boa circula\u00e7\u00e3o de ar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Fonte: Terra<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos dias, a pandemia no Brasil foi marcada por imagens de dor e de esperan\u00e7a. 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