{"id":15707,"date":"2021-05-17T19:31:42","date_gmt":"2021-05-17T19:31:42","guid":{"rendered":"https:\/\/oparanews.com.br\/?p=15707"},"modified":"2021-05-17T19:31:42","modified_gmt":"2021-05-17T19:31:42","slug":"vacina-contra-covid-gera-corrida-por-atestado-de-comorbidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.oparanews.com.br\/index.php\/2021\/05\/17\/vacina-contra-covid-gera-corrida-por-atestado-de-comorbidade\/","title":{"rendered":"Covid-19: Vacina gera corrida por atestado de comorbidade"},"content":{"rendered":"<p>Iniciada em grande parte do Pa\u00eds nas \u00faltimas semanas, a vacina\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o com comorbidades contra a covid-19 tem gerado uma corrida por atestados m\u00e9dicos e at\u00e9 mesmo suspeitas de fraudes. Poss\u00edveis casos de &#8220;fura fila&#8221; s\u00e3o investigados em Estados como Amap\u00e1 e Para\u00edba, mas tamb\u00e9m t\u00eam sido relatados por profissionais de sa\u00fade de outras partes do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>As comorbidades listadas pelo Plano Nacional de Imuniza\u00e7\u00e3o (PNI) como priorit\u00e1rias na campanha de vacina\u00e7\u00e3o contra o novo coronav\u00edrus incluem doen\u00e7as que atingem parte significativa da popula\u00e7\u00e3o, como diabetes e cardiopatias. Por\u00e9m, em alguns casos, como no da hipertens\u00e3o, a imuniza\u00e7\u00e3o \u00e9 permitida apenas para pessoas que est\u00e3o em est\u00e1gios menos leves da patologia.<\/p>\n<p>Ao todo, a estimativa federal \u00e9 que 17,7 milh\u00f5es de pessoas de 18 a 59 anos se enquadram nesse grupo. A data de in\u00edcio da vacina\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o com comorbidades varia entre os Estados, que t\u00eam optado pela libera\u00e7\u00e3o aos poucos, geralmente pelas faixas et\u00e1rias mais altas, como orienta o PNI.<\/p>\n<p>No Amap\u00e1 e na Para\u00edba, procedimentos foram instaurados pelos Minist\u00e9rios P\u00fablicos estaduais e o Federal, e seguem em apura\u00e7\u00e3o. Detalhes sobre os casos n\u00e3o foram divulgados pelas assessorias de imprensas.<\/p>\n<p>Em Jo\u00e3o Pessoa, a prefeitura anunciou nesta semana que passaria a vacinar apenas pessoas com laudos m\u00e9dicos para comorbidades. O imunizado precisa deixar uma c\u00f3pia do comprovante no local de imuniza\u00e7\u00e3o, que ser\u00e1 encaminhada para apura\u00e7\u00e3o por uma comiss\u00e3o municipal e outros \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o no Estado tamb\u00e9m motivou a publica\u00e7\u00e3o de um comunicado do Conselho Regional de Medicina (CRM). &#8220;\u00c9, obviamente, imprescind\u00edvel tamb\u00e9m que as informa\u00e7\u00f5es prestadas pelo m\u00e9dico sejam verdadeiras, conforme considera o Artigo 80 do C\u00f3digo de \u00c9tica M\u00e9dica: &#8216;\u00c9 vedado ao m\u00e9dico expedir documento m\u00e9dico sem ter praticado ato profissional que o justifique, que seja tendencioso ou que n\u00e3o corresponda \u00e0 verdade&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, por sua vez, a prefeitura de Mar\u00edlia informou na quinta-feira, 13, ter identificado que moradores apresentaram receitas de familiares ou falsificadas para conseguir a imuniza\u00e7\u00e3o. &#8220;Estamos com uma equipe capacitada para analisar essas informa\u00e7\u00f5es&#8221;, afirmou a coordenadora de imuniza\u00e7\u00e3o, Juliana Bortoletto, em comunicado do munic\u00edpio.<\/p>\n<p>No Rio, o prefeito de Barra Mansa, Rodrigo Drable (DEM), tamb\u00e9m relatou ter recebido den\u00fancias de atestados e laudos falsos. Parte delas teria partido de m\u00e9dicos que se recusaram a fornecer o documento indevidamente, mas souberam posteriormente que um colega de profiss\u00e3o fez o oposto.<\/p>\n<p>&#8220;Fiquem atentos, senhores m\u00e9dicos, vou denunciar no CRM e no MP. \u00c9 uma vergonha alguns m\u00e9dicos se prestarem a isso. Como tamb\u00e9m sempre foi uma vergonha m\u00e9dico se prestar a dar atestado falso para a pessoa faltar no servi\u00e7o&#8221;, afirmou o prefeito em rede social.<\/p>\n<p>Press\u00e3o. Profissionais de outros Estados tamb\u00e9m t\u00eam relatado a press\u00e3o de pacientes para a emiss\u00e3o de atestados de comorbidades. Ao Estad\u00e3o, uma m\u00e9dica que atende em uma UPA de Bel\u00e9m e em uma UBS no interior do Par\u00e1 relatou situa\u00e7\u00e3o semelhante.<\/p>\n<p>&#8220;Por ser rec\u00e9m-formada, muitas pessoas acabam tentando se aproveitar disso para tentar passar na frente da fila da vacina, pedindo receita de medicamento para comorbidade e at\u00e9 mesmo pedindo atestado. Com certeza, teve uma procura muito maior depois que liberaram a vacina\u00e7\u00e3o para pacientes que t\u00eam comorbidades&#8221;, relatou. &#8220;J\u00e1 houve casos at\u00e9 de colegas que foram oferecidas quantias em dinheiro para dar laudo, atestar comorbidades&#8221;.<\/p>\n<p>Para evitar fraudes, ela sugere que a vacina\u00e7\u00e3o seja realizada no local onde a pessoa com comorbidade costuma ser acompanhado ou que o nome dos pacientes aptos seja levantado pela rede ou pelo munic\u00edpio. &#8220;Se n\u00e3o for desse jeito, acredito que tenha muita gente furando a fila, que tem muita gente com atestado para uma comorbidade que n\u00e3o existe&#8221;, diz. &#8220;Depois da vacina\u00e7\u00e3o para as comorbidades, houve uma procura muito maior dos pacientes que precisam comprovar que tinham essas comorbidades.&#8221;<\/p>\n<p>Dois m\u00e9dicos de Sorocaba, no interior de S\u00e3o Paulo, afirmam ter sido procurados por pacientes com esse prop\u00f3sito. Um deles, que atua como cl\u00ednico geral e geriatra, contou ter recebido a liga\u00e7\u00e3o de uma paciente de 58 anos pedindo um atestado para cardiopatia associada \u00e0 hipertens\u00e3o, mas n\u00e3o apresentava esse problema de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Outro profissional, cardiologista, comentou que uma paciente de 51 anos foi ao consult\u00f3rio pedir um atestado para uma doen\u00e7a que n\u00e3o possui, pois alegou que precisava ser vacinada. Segundo ele, a mulher ficou insatisfeita com a recusa e chegou a dizer que esperava que fosse &#8220;mais amigo&#8221; e que procuraria um m\u00e9dico &#8220;mais compreensivo&#8221;.<\/p>\n<p>Relatos semelhantes tamb\u00e9m t\u00eam sido postados em redes sociais. &#8220;Antigamente, o pessoal queria atestado de boa sa\u00fade para praticar esportes e (prestar um) concurso p\u00fablico. Por causa da vacina, hoje a pedida \u00e9 (por) atestado de doen\u00e7a. &#8216;Tem como me ver uma asma a\u00ed?'&#8221;, desabafou um profissional de sa\u00fade do Amap\u00e1.<\/p>\n<p>Dificuldade. Por outro lado, parte da popula\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tem enfrentado dificuldades de obter toda a comprova\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para ser vacinada. Em Fortaleza, por exemplo, a pensionista Maria do Carmo Freitas, de 59 anos, teve a imuniza\u00e7\u00e3o negada porque a equipe n\u00e3o aceitou exames datados de agosto passado, embora a paciente tenha cardiopatia, estente (pr\u00f3tese interna que evita o entupimento de art\u00e9rias) e ponte de safena.<\/p>\n<p>Ela e a filha Camila, de 27 anos, foram atr\u00e1s de documenta\u00e7\u00e3o no hospital em que costuma se tratar de cardiopatias, mas tamb\u00e9m n\u00e3o conseguiram. Por fim, no dia seguinte, conseguiram o comprovante em uma unidade de sa\u00fade.<\/p>\n<p>&#8220;Acho que \u00e9 necess\u00e1rio comprovar, mas houve um desencontro de informa\u00e7\u00f5es muito grande&#8221;, comenta Camila. &#8220;No caso da minha m\u00e3e, foi uma coisa que me deixou muito preocupada, porque ela j\u00e1 tem uma sa\u00fade fr\u00e1gil, e eu ter de lev\u00e1-la a um posto de sa\u00fade cheio de gente com casos de covid-19&#8230; Fiquei meio apreensiva.&#8221;<\/p>\n<p>Em nota, a prefeitura local afirmou que cobra a apresenta\u00e7\u00e3o &#8220;atestado, relat\u00f3rio ou prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica indicando o motivo para a aplica\u00e7\u00e3o da vacina, com validade de at\u00e9 um ano&#8221;.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m procurado, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade salientou ter publicado uma nota t\u00e9cnica com orienta\u00e7\u00f5es em 4 de maio, embora essa etapa da imuniza\u00e7\u00e3o tenha iniciado antes dessa data em parte do Pa\u00eds. O documento aponta que o cadastro na unidade de refer\u00eancia \u00e9 suficiente no caso de indiv\u00edduos que fazem o acompanhamento pelo SUS, enquanto os demais devem apresentar laudos, declara\u00e7\u00f5es, prescri\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas ou relat\u00f3rios.<\/p>\n<p>Mudan\u00e7as. Ex-presidente da Anvisa e professor da USP e da FGVSa\u00fade, o m\u00e9dico sanitarista Gonzalo Vecina Neto avalia que a forma com que o PNI foi desenvolvido impacta hoje na difus\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o na pandemia: &#8220;Deveria ter colocado em consulta p\u00fablica para a sociedade saber o que estamos fazendo e propondo. O fato de n\u00e3o fazer isso cria um clima de barata voa, de gente com dificuldade para demonstrar ter comorbidade e gente buscando facilidades&#8221;.<\/p>\n<p>Por essa falta de transpar\u00eancia, Vecina Neto diz haver muitas d\u00favidas entre as pessoas se s\u00e3o ou n\u00e3o de algum grupo priorit\u00e1rio, por exemplo. &#8220;N\u00e3o resolveria 100%, mas, certamente, se fosse mais transparente, provavelmente ter\u00edamos comunica\u00e7\u00e3o diferente e o povo tomando atitudes menos ruins. Quando o problema come\u00e7ou no Estado, a\u00ed n\u00e3o tem jeito&#8221;, lamenta. &#8220;Est\u00e1 todo mundo perdido, isso \u00e9 muito ruim.&#8221;<\/p>\n<p>Para o sanitarista, com o abastecimento atual de imunizantes, a prioridade deveria ser dos trabalhadores de servi\u00e7os essenciais, como de atendimento em supermercados e farm\u00e1cias, por exemplo, que se exp\u00f5em mais ao v\u00edrus por seguirem com o trabalho presencial em toda a pandemia. &#8220;Quem est\u00e1 em home office n\u00e3o deveria tomar neste momento (mesmo com comorbidade)&#8221;, avalia.<\/p>\n<p>J\u00e1 o presidente da Sociedade Brasileira de Imuniza\u00e7\u00f5es (SBIm), o tamb\u00e9m m\u00e9dico Juarez Cunha, avalia que \u00e9 correta a prioriza\u00e7\u00e3o das pessoas com comorbidades, por serem mais propensas ao desenvolvimento de casos moderados e graves da covid-19. &#8220;Chama aten\u00e7\u00e3o desde o in\u00edcio da pandemia que pessoas com doen\u00e7as cardiovasculares e diabetes s\u00e3o mais afetadas&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Ele considera, contudo, que a lista das comorbidades apontadas no PNI pode deixar de fora pessoas com outras situa\u00e7\u00f5es de sa\u00fade que tamb\u00e9m est\u00e3o em risco, como no caso de doen\u00e7as graves. Al\u00e9m disso, destaca que no caso das pessoas com obesidade m\u00f3rbida, n\u00e3o h\u00e1 motivo para exigir a apresenta\u00e7\u00e3o de atestado e afins, visto que o \u00cdndice de Massa Corp\u00f3rea (calculado a partir do peso e da altura) pode ser aferido no local.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Fonte: Estad\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Iniciada em grande parte do Pa\u00eds nas \u00faltimas semanas, a vacina\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o com comorbidades contra a covid-19 tem gerado uma corrida por atestados m\u00e9dicos e at\u00e9 mesmo suspeitas de fraudes. 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