{"id":8965,"date":"2020-08-26T14:30:43","date_gmt":"2020-08-26T14:30:43","guid":{"rendered":"https:\/\/oparanews.com.br\/?p=8965"},"modified":"2020-08-26T14:30:43","modified_gmt":"2020-08-26T14:30:43","slug":"pandemia-completa-seis-meses-no-brasil-e-deixa-licoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.oparanews.com.br\/index.php\/2020\/08\/26\/pandemia-completa-seis-meses-no-brasil-e-deixa-licoes\/","title":{"rendered":"Pandemia completa seis meses no Brasil e deixa li\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>O carnaval mal tinha terminado oficialmente quando o Brasil registrou o primeiro caso de covid-19 &#8211; pouco menos de 60 dias depois da detec\u00e7\u00e3o do v\u00edrus no interior da China. Nesta ter\u00e7a-feira, a epidemia completa seis meses em territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>De acordo com o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, em 13 de agosto, a doen\u00e7a estava presente em 98,4% dos munic\u00edpios. S\u00e3o 3,6 milh\u00f5es de casos confirmados e mais de 115 mil mortes, o que nos coloca na posi\u00e7\u00e3o de segundo pa\u00eds mais afetado do mundo, atr\u00e1s apenas dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>&#8220;Uma nova epidemia vir\u00e1 em algum momento&#8221;, sustenta Roberto Medronho, especialista em sa\u00fade p\u00fablica e professor de epidemiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). &#8220;N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de &#8216;se&#8217;, mas de &#8216;quando&#8217; um novo v\u00edrus surgir\u00e1 ou um v\u00edrus j\u00e1 conhecido ressurgir\u00e1.&#8221;<\/p>\n<p>Os n\u00fameros ainda s\u00e3o muito altos, e nenhuma vacina ou tratamento espec\u00edfico contra o novo coronav\u00edrus foi descoberto, a despeito dos esfor\u00e7os cient\u00edficos sem precedentes. Mesmo assim, especialistas brasileiros dizem que aprendemos li\u00e7\u00f5es importantes nos \u00faltimos meses. Sobre a doen\u00e7a especificamente e tamb\u00e9m sobre a humanidade de uma maneira mais geral.<\/p>\n<p>Listamos abaixo seis delas, que devem nos acompanhar mesmo depois da pandemia.<\/p>\n<p>A COMPREENS\u00c3O DA DOEN\u00c7A<\/p>\n<p>Inicialmente considerada uma doen\u00e7a pulmonar, a covid-19 se revelou uma doen\u00e7a sist\u00eamica, que ataca diversos \u00f3rg\u00e3os e fun\u00e7\u00f5es do corpo. &#8220;Houve uma curva de aprendizado muito intensa&#8221;, atesta a pneumologista Margareth Dalcolmo, da Escola Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica da Fiocruz.<\/p>\n<p>A necessidade de combater a inflama\u00e7\u00e3o generalizada, a aten\u00e7\u00e3o especial aos eventos circulat\u00f3rios, a garantia da boa oxigena\u00e7\u00e3o do paciente s\u00e3o algumas das pr\u00e1ticas que j\u00e1 se tornaram norma no atendimento \u00e0 covid. Nenhum rem\u00e9dio espec\u00edfico se revelou eficaz contra o v\u00edrus, mas v\u00e1rios medicamentos est\u00e3o sendo usados para tratar os sintomas, como corticoides, anticoagulantes e terapia com plasma convalescente. O preparo da equipe m\u00e9dica tamb\u00e9m \u00e9 crucial.<\/p>\n<p>&#8220;Os melhores resultados n\u00e3o est\u00e3o associados a novas medica\u00e7\u00f5es ou terapias, mas ao preparo da equipe e ao treinamento&#8221;, afirma o infectologista Fernando Bozza, do Instituto Nacional de Infectologia da Fiocruz. &#8220;As boas pr\u00e1ticas com os pacientes graves salvam vidas, n\u00e3o as tentativas esdr\u00faxulas de uso de terapias sem evid\u00eancias cient\u00edficas.&#8221;<\/p>\n<p>O IMPACTO ECON\u00d4MICO E SOCIAL<\/p>\n<p>&#8220;Esse modo de produ\u00e7\u00e3o e de vida que o mundo adotou precisa ser revisado, isso ficou muito evidente&#8221;, diz o epidemiologista Roberto Medronho, coordenador do Grupo de Trabalho Multidisciplinar para Enfrentamento da Covid-19 da UFRJ. &#8220;Espero que nesses meses de isolamento e confinamento as pessoas tenham aproveitado para repensar um pouco a forma de lidar com a natureza e como o outro.&#8221;<\/p>\n<p>A epidemia tamb\u00e9m teve um efeito devastador sobre o sistema de sa\u00fade de v\u00e1rios pa\u00edses, como It\u00e1lia e Espanha, e tamb\u00e9m de muitos estados do Brasil, como o Amazonas. Paralisou parte da produ\u00e7\u00e3o industrial, do com\u00e9rcio e deixou milhares de desempregados.<\/p>\n<p>&#8220;No caso espec\u00edfico do Brasil, a epidemia acentuou as desigualdades econ\u00f4micas, raciais e regionais&#8221;, constata Fernando Bozza. &#8220;A letalidade entre os jovens internados no Nordeste, por exemplo, \u00e9 o dobro da registrada no Sudeste. Esse resultado n\u00e3o \u00e9 exclusivamente por causa da epidemia, mas porque j\u00e1 era horr\u00edvel antes e agora piorou.&#8221;<\/p>\n<p>A IMPORT\u00c2NCIA DA CI\u00caNCIA<\/p>\n<p>Sem ci\u00eancia, n\u00e3o ter\u00edamos avan\u00e7os t\u00e3o r\u00e1pidos na compreens\u00e3o da doen\u00e7a, na cria\u00e7\u00e3o de kits de diagn\u00f3stico e, sobretudo, no desenvolvimento de vacinas em tempo recorde. S\u00e3o mais de 160 subst\u00e2ncias sendo testadas em todo o mundo, segundo a OMS. As expectativas mais otimistas s\u00e3o de que poder\u00edamos ter um imunizante eficaz j\u00e1 no in\u00edcio do ano que vem.<\/p>\n<p>&#8220;A pandemia deixou tamb\u00e9m muito claro que n\u00e3o podemos ficar dependentes de outros pa\u00edses nesta \u00e1rea, precisamos de autonomia&#8221;, diz Roberto Medronho. &#8220;Houve um momento em que n\u00e3o havia respiradores, m\u00e1scaras, equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual. N\u00e3o podemos ficar dependentes da China, dos Estados Unidos, ou de quem quer que seja. N\u00e3o podemos ser totalmente dependentes no caso das vacinas. Acho que agora pelo menos parte da sociedade percebeu a import\u00e2ncia da ci\u00eancia para o desenvolvimento de uma na\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>O oncologista Cl\u00e1udio Ferrari, diretor do Instituto D&#8217;Or de Pesquisa e Ensino, sustenta que as grandes respostas da ci\u00eancia v\u00eam sempre das ci\u00eancias b\u00e1sicas. &#8220;A ci\u00eancia \u00e9 uma atividade colaborativa, e as respostas s\u00e3o constru\u00eddas juntando-se conhecimentos; o livre tr\u00e2nsito de informa\u00e7\u00f5es \u00e9 fundamental para que isso aconte\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>Para Medronho, a pandemia indica tamb\u00e9m a necessidade de investimentos na descoberta de novos f\u00e1rmacos capazes de destruir os v\u00edrus emergentes.<\/p>\n<p>O ESTRAGO DAS FAKE NEWS<\/p>\n<p>&#8220;O desservi\u00e7o que as fake news fizeram do ponto de vista da informa\u00e7\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o foi enorme. As redes sociais foram inundadas com bobajadas sem fim, terapias falsas, uma s\u00e9rie de coisas que serve apenas para confundir a popula\u00e7\u00e3o: foi um desservi\u00e7o pol\u00edtico e de sa\u00fade p\u00fablica&#8221;, critica Fernando Bozza. &#8220;A imprensa est\u00e1 fazendo o seu papel, mas a sociedade brasileira como um todo n\u00e3o conseguiu se organizar para dar uma resposta adequada diante da gravidade do que estamos vivendo.&#8221;<\/p>\n<p>Especialistas que constataram que a cloroquina n\u00e3o funcionava contra a covid chegaram a ser amea\u00e7ados de morte. Alguns m\u00e9dicos, por sua vez, defenderam o uso de rem\u00e9dios sem efic\u00e1cia comprovada com base em evid\u00eancias.<\/p>\n<p>Para o infectologista, a falta de uma resposta nacional coordenada e as mensagens contradit\u00f3rias enviadas pelo governo federal confundiram ainda mais a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A HERAN\u00c7A PARA A HUMANIDADE<\/p>\n<p>&#8220;A gente aprendeu muita coisa&#8221;, diz Margareth Dalcolmo. &#8220;Toda uma gera\u00e7\u00e3o que nunca tinha vivenciado algo semelhante (a \u00faltima grande pandemia foi a da gripe espanhola de 1918) pode entender de fato o que \u00e9 uma pandemia de uma doen\u00e7a transmiss\u00edvel. \u00c9 assustador. \u00c9 um evento que certamente vai modificar a qualidade de vida no planeta, para o bem ou para o mal.&#8221;<\/p>\n<p>Claudio Ferrari destaca a import\u00e2ncia da globaliza\u00e7\u00e3o na pandemia. &#8220;Num mundo cada vez mais globalizado, as doen\u00e7as se tornam universais; as comunidades operam como grandes organismos: adoecemos juntos e nos recuperamos juntos&#8221;, diz. &#8220;Outra li\u00e7\u00e3o importante \u00e9 que \u00e9 mais f\u00e1cil matar o mosquito do que fazer as pessoas usarem m\u00e1scaras e lavarem as m\u00e3os; as mudan\u00e7as de h\u00e1bitos seguem como o grande desafio para a sa\u00fade no s\u00e9culo XXI.&#8221;<\/p>\n<p>A CERTEZA DA PR\u00d3XIMA EPIDEMIA<\/p>\n<p>&#8220;Estava previsto por v\u00e1rias pessoas que haveria uma pandemia de doen\u00e7a respirat\u00f3ria; at\u00e9 o Bill Gates, num Ted Talks, falou sobre isso&#8221;, lembra Fernando Bozza. &#8220;Mas embora os governos soubessem disso, poucos pa\u00edses se prepararam, a maior parte foi surpreendido, mesmo aqueles que tinham algum plano. E os pa\u00edses hoje que t\u00eam o maior n\u00famero de casos e mortes, Estados Unidos e Brasil, s\u00e3o os que negaram a epidemia, demoraram para dar uma resposta e n\u00e3o tiveram uma resposta coordenada.&#8221;<\/p>\n<p>Roberto Medronho afirma que uma nova epidemia vir\u00e1 em algum momento. &#8220;N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de &#8216;se&#8217;, mas de &#8216;quando&#8217; um novo v\u00edrus surgir\u00e1 ou um v\u00edrus j\u00e1 conhecido ressurgir\u00e1.&#8221;<\/p>\n<p>Para os especialistas, \u00e9 preciso que haja uma pol\u00edtica nacional estruturada para enfrentar o problema. &#8220;A epidemia gerou a maior queda do PIB global desde que o PIB global \u00e9 aferido&#8221;, constata Fernando Bozza. &#8220;Ou seja, o custo da pandemia \u00e9 muito maior do que qualquer medida de preven\u00e7\u00e3o ou mitiga\u00e7\u00e3o que tivesse sido tomada.&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Fonte: Terra<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O carnaval mal tinha terminado oficialmente quando o Brasil registrou o primeiro caso de covid-19 &#8211; pouco menos de 60 dias depois da detec\u00e7\u00e3o do v\u00edrus no interior da China. 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