“Carnaval deveria ser só em 2022”, diz Martinho da Vila

Nesta sexta (20), dia em que é celebrado o Dia Nacional da Consciência Negra e Dia de Zumbi dos Palmares, Martinho da Vila disponibiliza em todas plataformas de música, “Rio Só Vendo a Vista”.

O novo álbum do cantor e compositor carioca reúne 12 faixas, sendo cinco inéditas e sete releituras, como uma homenagem ao Rio de Janeiro. Além de cantar as belezas de sua cidade natal, o sambista reúne a família e transforma o disco em uma celebração à cidade maravilhosa.

O álbum traz uma dedicatória para sua mulher Cleo em “Minha Preta, Minha Branca”. Martinho divide os vocais com as filhas Maíra Freitas, Mart’nália em “Assim Não Zambi” e “Menina da Rua”, respectivamente. E pela primeira vez tem a filha caçula, Alegria, presente no estúdio para participar das gravações.

No inícío da semana, troquei uma ideia com Martinho, por telefone, sobre “Rio Só Vendo a Vista”. Com a habitual voz tranquila e doce, ele me contou como foram as gravações em família, sobre a homenagem que receberá da Vila Isabel no próximo Carnaval e disse que usou o isolamento para escrever um novo livro.

Comecei a conversa dizendo que eu tinha gostado muito do disco e ele me respondeu dizendo: “Fico feliz quando consigo emocionar. É a maneira que tenho certeza que pratiquei bem meu ofício”. Leia abaixo os principais momentos da nossa conversa:

Adriana de Barros: Você já começa o disco homenageando Noel Rosa, que assim como você, foi uma cria de Vila Isabel, e um dos maiores nomes da música do Brasil. Como você acha que Noel olharia para a atual fase do samba no país? E você, como é olhar o samba tão em alta com jovens artistas se destacando?
Martinho da Vila: Eu acho que ele ficaria bastante feliz e orgulhoso de si. Ele faz parte de um grupo que eram todos brancos, como ele. Ele não gostava muito de cantar samba porque era música de preto. Aí o ele [Noel] subiu o morro, trocou figurinhas com os grandes, bebeu na fonte deles e trouxe o samba para a sociedade carioca. Então, acredito que ele estaria contente com o resultado de tudo isso. Eu também fico feliz por essa moçada que desponta no samba e fico torcendo para que eles entendam do seu ofício e também conheçam suas capacidades. Que eles entendam que a arte de cantar não é só cantar. A arte de cantar é interpretar e emocionar.

“Rio só vendo a Vista” é uma homenagem ao Rio de Janeiro com um olhar sobre suas belezas e riquezas culturais. Em quais momentos o “Rio é um Grande Abacaxi”, como diz na letra?
(rs) Essa letra quem fez foi o poeta Geraldo Carneiro, eu fiz a melodia. Ele sempre teve essa característica e ele fala dos subúrbios do Rio, da Zona Sul e de todas as particularidades do Rio. Pra conhecer o Rio só vendo a vista, também é uma cidade que só vende a vista e mais nada.

Nesse álbum, você canta o convívio fraterno, a luta por justiça social, o combate ao racismo, o respeito às religiões afros. Enfim, você aponta um caminho para o combate à intolerância. Qual Rio você gostaria de viver no futuro?
Gostaria de ver o Rio mais fraterno, com poder público melhor. Rio com menos contrastes sociais, com mais cuidado às pessoas das favelas. À noite, as luzes das favelas são lindas, mas quando amanhece não é bem assim.

Podemos considerar esse álbum de um encontro familiar? Afinal, tem homenagem pra sua mulher, em “Minha Preta Minha Branca”, você canta com suas filhas Mart’nália, Maíra Freitas e pela primeira vez com a Alegria, sua caçula. Já era um plano ou foi acontecendo?
Foi acontecendo, na verdade. Eu gosto muito de estar com elas e quando elas participam dos meus trabalhos fico muito feliz. A Mart’nália sempre me chama pra dar palpite no trabalho dela. Foi mesmo pra ficar juntos.

E como foi a estreia da Alegria?
Eu nem pensava que ela ia conseguir fazer. Pensei nela para uma participação porque tinham todos os irmãos, pensei em colocá-la em pequenas inserções. Aí a Maíra Freitas chamou ela pra cantar e foi envolvendo ela de um jeito que aconteceu tudo. A música une e isso traz solidariedade também.

Essa semana foi anunciada pela LIESA (Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) que, se a vacina contra a Covid-19 for disponibilizada, os desfiles das escolas de samba do Grupo Especial serão nos dias 10 e 11 de julho de 2021. Qual sua opinião sobre este Carnaval?
Na minha opinião não deveria ter Carnaval, eu sugeriria que eles esquecessem esse ano. Deixa o Carnaval de 2021 pra lá e vamos fazer em 2022, quando que essa pandemia já foi. Acho que deveria passar em branco mesmo. O Carnaval em julho não é muito legal. Aí em 2022 as escolas não terão tempo para se preparar e o problema vai continuar. Queria que fosse em fevereiro porque além de ser homenageado no próximo Carnaval pelo samba-enredo da Vila, é meu aniversário. Nada de Carnaval em julho, vamos para fevereiro de 2022.

Como estão seus dias de quarententa?
Fiz um livro de contos que já terminei. Ele chama-se “Contos Sensuais e Algo Mais”. Gastei meu tempo de quarentena com isso. Fora isso, não estou gostando. O que mais gosto de fazer na vida é viajar. Então, estar no palco fora do Rio de Janeiro, é o que mais amo. Trabalho viajando e, no palco, realizo meu ofício. Isso tá fazendo uma falta muito grande. Não vejo a hora de retomar. Poder cantar e emocionar.

 

Fonte: Terra

 

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